Viver em Lisboa

Dúvidas de quem quer morar em Lisboa: mitos e verdades!

27 de Abril de 2017

Nas últimas semanas, foram veiculadas diversas matérias sobre uma nova onda de brasileiros em Portugal e os diversos aspectos da vida em Lisboa. Percebemos que algumas delas não entram em maiores detalhes e/ou mostram dados bastante ultrapassados. Por isso, resolvemos falar um pouco as condições de vir morar em Lisboa, dentro da nossa experiência, claro.

Viemos para Portugal para fazer o mestrado em Direito. Sendo assim, não trabalhamos e, por isso, não temos muito que dizer sobre o mercado de trabalho. Quanto ao mestrado, faremos um post específico em breve para ajudar aqueles que tem interesse em vir pra cá estudar! Só para esclarecer, viemos por conta própria, sem nenhuma bolsa ou programa de auxílio.

➸ Vistos e renovações:

Tomada a decisão de vir para Portugal por alguma outra razão que não seja turismo, a primeira coisa a fazer é procurar o Consulado de Portugal para obter o visto correto para sua vinda, já que existem situações diferentes, como, por exemplo, aposentados que querem viver aqui, estudantes e outros. Todas elas exigem uma permissão específica. Esse processo de obtenção do visto correto demora, em média, quatro meses. Bem, pelo menos em Belo Horizonte foi assim. É importante ressaltar: não tente vir como turista e “regularizar” a situação aqui. Você pode ter muitos aborrecimentos e despesas desnecessárias (advogados, multa, etc.).

Os requisitos para a concessão do visto variam de acordo com os motivos de residência e a documentação tem algumas exigências que devem ser observadas. Devem demonstrar, principalmente, disponibilidade de alojamento, meios de subsistência e o motivo do pedido (matrícula em mestrado, por exemplo). É prudente verificar com muita antecedência. O documento é dado por um período determinado e as renovações deverão ser ser feitas mediante marcação/agendamento no SEF – Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Esse é o órgão que faz a imigração no aeroporto e cuida de tudo relacionado a estrangeiros em Portugal, inclusive do visa golden para aqueles que adquirem imóvel no valor igual ou superior a 500.000€ (leia mais aqui). Nossa experiência atual diz que as marcações tem demorado bastante, então, fique atento! Nossos vistos e renovações custaram, cada, 97€.
Se informe no SEF para entrar com o pedido de residência temporária, de acordo com seu visto.  Como cada caso é um caso, convém mesmo se informar sobre a sua situação específica no órgão competente.
Alguns consulados tem um procedimento para agendamento bem “peculiar”. Até junho de 2016, o consulado em Belo Horizonte somente abria o agendamento de entrevistas no dia 29 para o mês subsequente e apenas online, o que dificulta muito!

➸ Moradia e despesas do cotidiano:

Vistos prontos, é hora de cuidar da moradia. A média do arrendamento/aluguel em Lisboa é de 850€ (vimos alguns dados divulgados que diziam 400€, valor hoje irreal). Claro que esse valor varia conforme o tamanho do apartamento, localização e condições. Nas cidades que cercam Lisboa, encontram-se imóveis mais baratos. É importante:

1) encontrar um corretor de confiança ou alguém que lhe forneça informações reais sobre o apartamento;
2) saber se você terá um apartamento com mobília (comprar as coisas pode ser um problema se sua estada for temporária; equipamentos da cozinha – fogão, forno e geladeira – quase sempre já estão instalados);
3) pesquisar os transportes que servem a área;
4) ter um contrato bem feito (alguns conhecidos tiveram problemas com proprietários);
5) saber que você terá que prestar uma caução que pode chegar a seis meses de aluguel.
Para que sua pesquisa fique mais direcionada dentro do que você procura, consulte o site da Remax, grande imobiliária daqui, pois lá você terá a noção exata.
Para te ajudar na pesquisa, quanto as características do apartamento, saiba que:

  • o número de quartos é precedido pela letra T (T1 = 1 quarto, T2 = 2 quartos e assim por diante)
  • Assoalhadas são os ambientes do apartamento (cozinha, área social, etc).
  • Casa de banho é o bom e velho banheiro

Normalmente, a despesa com condomínio é feita pelo proprietário do imóvel. Neste caso, o locatário paga o aluguel, aqui chamado de renda, e as despesas com energia, gás e água. A energia é mais um pouco mais cara que no Brasil e a água praticamente a mesma coisa.

O quanto se gasta com as necessidades básicas em supermercados, talhos/açougues, mercados e afins, é uma questão de cada um. O importante é saber que se pode viver por aqui gastando valores aproximados em relação ao Brasil. Alguns itens são mesmo mais baratos (caso dos peixes, mariscos, vinhos); outros, mais caros (caso da carne vermelha). É tudo uma questão de estilo de vida (e de bolso). Para consulta segue o link do Continente e Pingo Doce, duas grandes redes de supermercado.
O acesso a vestuário é muito democrático: há desde lojas de baixo custo e qualidade razoável (caso da Primark) até as grandes marcas.

Os transportes públicos de Lisboa funcionam bem a custos razoáveis. O passe mensal , no tipo “navegante urbano” (dá acesso só mesmo em Lisboa tanto em metrô, ônibus e elétricos), custa aproximadamente 36€ e pode ser utilizado a vontade. Nunca tivemos carro em Portugal, já que a mobilidade urbana é boa e os combustíveis portugueses são os mais caros da Europa. Além disso, alugar um carro aqui, desde que com antecedência, é fácil e barato.

Nem tudo são flores. Os serviços são bem caros em terras portuguesas. Diarista, empregada doméstica, salões de beleza, encanadores, chaveiros, veterinários (temos um cão) etc cobram valores muito superiores aos serviços brasileiros e podem, facilmente, desequilibrar seu orçamento. Para ilustar, fazer o pé no salão custa em média 20 euros, ou seja, mais de R$ 60,00!

A excepção fica por conta das prestadoras de serviços de telefonia e TV a cabo. Pelo pacote básico da Vodafone (TV, internet e telefone fixo), pagamos por volta de 30€ por mês. Já no telemóvel/celular, tudo vai depender do seu plano (o nosso tem custo de 4€ por semana), mas também não é caro e há muitas opções.
Isso nos leva a um outro assunto: o número de contribuinte.

➸ O NIF e acesso aos serviços públicos de saúde:

NIF é o número de identificação fiscal, nosso CPF. Como um residente temporário (não definitivo), o brasileiro só poderá requerer a inscrição mediante a apresentação do passaporte, de um comprovante de endereço no Brasil e (a bomba) uma pessoa, portuguesa ou com residência definitiva, que assuma o encargo de ser seu representante fiscal junto às autoridades tributárias. Sem o NIF, você não pode contratar internet, telefone (resta o pré-pago), abrir conta em bancos, etc.

O estrangeiro tem acesso aos serviços públicos de saúde, entretanto é necessário pegar no Brasil (o consulado brasileiro não faz mais esse serviço) o chamado PB-4, que é o Certificado de Direito a Assistência Médica. Com CDAM, resultante de um acordo entre Brasil e outros países, é possível usar a rede pública pagando cerca de 5 euros por consulta. Caso prefira pode também fazer um Seguro de Saúde ou pagar consultas e exames particulares.

➸ Concluindo:

Você deve estar pensando: eu quero números!!! Quanto custa viver em Lisboa?
Sabemos que é algo muito pessoal, mas vamos lá: para um casal viver num apartamento de, aproximadamente 50metros quadrados, de 1 quarto e 1 banheiro, dentro de Lisboa, é difícil ter um orçamento menor que de 1.600€. Entretanto acredite numa coisa: esse orçamento será, com frequência, peça de ficção. É que, estando aqui, você vai, certamente, desejar viajar pelo país ou fora dele. Lá se vai seu orçamento! Outro ponto que também faz diferença é quando você ganha em reais e gasta em euros, pois sabemos que a oscilação da moeda é uma constante!

Com relação a qualidade de vida, sim, é muito boa! Temos a tranquilidade de sairmos a noite, a pé, as vezes até de madrugada na volta para casa com a certeza de que nada vai acontecer! Claro, vale aquela máxima mundial de ficar atento, não deixar a bolsa aberta, ter cuidado com seus pertences, principalmente em lugares mais turísticos e mais cheios, mas isso vale para qualquer cidade, afinal, não é bom dar sopa pro azar!

Além disso, a utilização do espaço público é excelente! Há programações em praças e jardins da cidade, gratuitas. Como a segurança não é uma questão, como para nós aí no Brasil, a lógica aqui não é de criar condomínios para vivermos cada vez mais fechados e sim de aproveitar a cidade e o que ela oferece! Isso é interessante demais, inclusive porque se você não tem um orçamento muito amplo, você consegue se divertir de graça!

Para finalizarmos, nós adoramos Lisboa e fomos muito bem recebidos pelos portugueses! Viemos de coração aberto e nossa adaptação ao estilo de vida e a personalidade dos europeus, de maneira geral, foi tranquila. Mas isso depende de cada um. Conhecemos quem não se adaptou e quem também amou. Lisboa tem defeitos, como qualquer outra cidade e achar que a grama do vizinho é sempre mais verde pode resultar em uma tremenda desilusão!

A mensagem que queremos deixar é: fazer o caminho inverso de Cabral é fantástico! Entretanto, é algo que demanda planejamento financeiro e burocrático muito bem feito e emocional também, pois o inverno é rigoroso e dura mais que o nosso e a escolha de viver longe da família e amigos também tem seu peso. Não se iluda com a onda brasileira em Portugal e programe-se!
Se quiser, deixe suas dúvidas nos comentários ou se preferir mande um e-mail para oinversodecabral@gmail.com.
Teremos prazer em responder!

  • Rayane27 de Abril de 2017 às 11:05

    Adorei o post! Muito esclarecedor. Agora, ansiosa pelo post sobre o mestrado de vocês, abraço.

    • Oinversodecabral27 de Abril de 2017 às 11:16

      Oi Rayane, obrigada! Já já o post sobre o mestrado entra no ar! 😉

  • Vanda27 de Abril de 2017 às 22:08

    Adorei o Post!!!

    • Oinversodecabral28 de Abril de 2017 às 08:26

      Que bom, Vanda! Obrigada!!!

  • Marluce28 de Abril de 2017 às 16:19

    Simplesmente fantástico o post! Parabéns pela sinceridade e clareza das informações.
    Um abraço e obrigada!

    • Oinversodecabral29 de Abril de 2017 às 11:00

      Obrigada, Marluce! Um abraço!

  • José Luiz Castanheira28 de Abril de 2017 às 22:06

    Boas informações e diretrizes excelentes para abrir os olhos de quem pretende fazer tal viagem.

    • Oinversodecabral29 de Abril de 2017 às 11:00

      Obrigada, José Luiz! Um abraço!

  • Rita28 de Abril de 2017 às 23:48

    Bem bacana o post mas e a saúde, podem falafel algo?!

    • Oinversodecabral29 de Abril de 2017 às 10:59

      Oi Rita, obrigada! Sobre a rede de saúde pública aqui ainda não precisamos utilizar (ainda bem!) mas temos amigos que já utilizaram e funciona bem.
      Sem o PB-4 que citamos no post, é possível ter acesso, entretanto, pagando mais caro do que quem tem a certidão. Por exemplo, com o PB4 a consulta custa em média 5 euros, sem ele, custa em torno de 35 euros. Um abraço!